Fevereiro, verão e carnaval. Nesse mês é que todo mundo vem para o nordeste brasileiro e eu como baiana e soteropolitana (quem nasce em Salvador) estou vendo a cidade que estreei (afinal, baiano não nasce, baiano estréia! Há...) sendo tomada por uma legião de turistas que desembarcam cada vez mais com a chegada do carnaval.
Eu estava me interrogando sobre o que será que essa galera vê no carnaval daqui. Antigamente até que se poderia ver algo de inressante nessa festa. Antes, a uns 15 anos atrás o carnaval era outro. Sabe...mais democrático. A festa era para todos. Para todos mesmo! Independente da condição financeira, vital ou homorística, a comemoração era acessível aos habitantes e turistas. Hoje o mundo inteiro assiste pela televisão a maior festa de rua do mundo e fica doido para chegar na Bahia e se jogar naquela multidão que corre alegre atrás do trio. Alegre? Ah, esqueci de apresentar a vocês o novo carnaval baiano. As coisas mudaram muito. Agora só há um jeito de alguém curtir a folia por aqui. Tendo dinheiro. Se você não tiver grana, amigo... nem se arrisque ! Nessa época as ruas são tomadas pelos camarotes que os blocos, com a passagem dos trios pelas avenidas, ocupam todo o espaço destinado ao folião pipoca (aquele que não está em bloco). Portanto, a única forma de ficar confortável na festa é pagando caríssimo por um desses serviços.
O “pipoca” não tem direitos no carnaval. Não tem dinheiro para pagar um abadá. Não tem segurança e corre o risco de ser agredido por um bêbado encrenqueiro. Sequer consegue assistir a festa e quando isso acontece, no mínimo está esmagado entre os blocos e os camarotes. Nem dá para respirar!!! E tem mais um detalhe:o pipoca é formado por mais ou menos 70% da população de Salvador, na maioria pobre.
Diante disso só há uma conclusão: o carnaval não é mais do pipoca, nem do pobre, nem dos habitantes da cidade. A festa é dos turista do sul e sudeste do país, além dos estrangeiros, compondo a parte privilegiada da corda que separa o povo da elite. Não tem como fugir. É ridículo afirmar que a folia baiana é democrática, afinal, a festa é a forte representação da desigualdade social e da segregação do do povo brasileiro. É lamentável que a mídia não esteja preocupada em mostrar esse lado obscuro do mês de fevereiro.

