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Um pouco de cultura, conversa fiada e piadinhas nao faz mal a ninguem, ne?

Legitimar o Injustificável

Para quem assistiu ao Fantástico do último domingo deve ter visto a matéria que questionava sobre ser ou não ser ético a efetuação de uma pesquisa científica sobre os jovens assassinos brasileiros. Esses cientistas querem estudar o cérebro desses infratores. Diante dessa matéria é notável que a ciência brasileira esteja entrando em um processo de regressão. Baseada em antigos cientistas deterministas e preconceituosos quanto à raça, essas pesquisas trazem um ressurgimento de um passado nojento e vergonhoso, o qual foi marcado por teorias ilógicas que tentavam justificar, de maneira suja, o comportamento de revolta de um povo pobre e sem oportunidades de desenvolvimento.

A reportagem do programa abordou a polêmica registrada sobre a pesquisa que deseja descobrir o porquê de tantos jovens brasileiros serem assassinos. Esses médicos alegam que a causa para esse problema pode ser algo mental. Para eles, adolescentes que matam podem ter seus cérebros com comportamentos incomuns do que seria o normal. Agora, é questionável uma coisa: Você, que já reparou a quantidade enorme de adolescentes que matam no Brasil, acha mesmo que todos eles têm problemas cerebrais ou genéticos? É muito moleque doido para uma sociedade só, não acha? Essa pesquisa poderia se coerente se fosse feita em um país rico, onde ninguém passa fome e miséria. Aí, sim! Um jovem que tem tudo para ser feliz, sair matando pela cidade, não é algo normal. Agora aqui... Onde estudar é um descaso e o desemprego assola a grande massa populacional, um adolescente que entra no crime disposto a roubar e matar não tem nada de doente mental! Assim, creio que a dificuldade desses cientistas em entender esses meninos é simplesmente falta de convivência. Se algum médico se candidatasse a passar uma semana na favela, certamente iria perceber que a necessidade deles não é um hospício, mas sim um hospital e uma escola eficientes que lhes dessem capacidade de desenvolvimento social.


Um ponto interessante da reportagem é o momento que diz que a pesquisa é baseada nas idéias de Cesare Lombroso. Para quem não o conhece, Lombroso foi um italiano difusor de teorias racistas. Quem estudou Direito deve conhecê-lo. Ele era adepto da frenologia (estudo da estrutura do crânio de modo a determinar o caráter das pessoas e a sua capacidade mental) e por muito tempo afirmou suas teorias. Para ele, um determinado formato do maxilar de uma pessoa pode demonstrar uma grande propensão de esta tornar-se, por exemplo, uma assaltante. Alguém que tivesse uma testa muito grande poderia ser psicótico(coitados dos testudos). Lésbicas e gays eram considerados delinqüentes. As suas idéias influenciaram o anti-semitismo nazista. O pior de tudo é que esses pensamentos ainda são bases do Direito Penal. Esse fato me faz lembrar início do século XX, onde Salvador foi palco dessas teorias. Vários negros foram mortos, pois as suas características físicas “condenava-os” ao crime e a demência. Para quem quiser entender mais como isso aconteceu na Bahia, o livro Tenda dos Milagres de Jorge Amado aborda de forma brilhante o tema. Lembro-me também que esses teóricos influenciaram na Guerra de Canudos, onde sertanejos eram vistos como inferiores, fanáticos e loucos. Por isso, percebo que a ciência brasileira anda na contramão da história e que a única coisa que está conseguindo fazer é acirrar o ódio entre as diferentes classes da nossa sociedade.


Logo, o povo não é louco e também não precisa de ressonância magnética (pelo ao menos não para esses fins). É triste ver uma elite procurando, como antes, justificativas para não ser responsabilizada pelas condições desumanas que a massa está condenada. É triste ver a violência do país ser tratada como problema de saúde pública. Estão legitimando o injustificável! Rousseau, grande filósofo, nesse aspecto, esteve certíssimo quando afirmou que o avanço da ciência não é a grande saída para os problemas humanos.